A Geely apresentou na última quarta-feira (23), em Ningbo, na China, o Geely Smart Charging, sistema de recarga ultrarrápida para carros elétricos gerenciado por inteligência artificial.
A quinta geração da estação de recarga da marca tem potência máxima de 2.250 kW, cerca de 50% acima dos 1.500 kW do Flash Charging, sistema lançado pela rival BYD em março.
Segundo a Geely, em testes com os modelos Lynk & Co 10 e Zeekr 001, ambos do grupo, a bateria foi de 10% a 70% em 4 minutos e 30 segundos.
Para chegar a 97%, foram 8 minutos e 40 segundos. Os números declarados pela BYD para o seu sistema são de 5 minutos (10% a 70%) e 9 minutos (10% a 97%).
A diferença de tempo é pequena, mas a disputa entre as duas gigantes chinesas mostra para onde caminha o mercado de elétricos: depois da corrida por autonomia, a briga agora é para deixar a parada na tomada próxima de um abastecimento com gasolina.
O centro da aposta da Geely é o Xingrui PowerMind, modelo de IA desenvolvido em parceria com a empresa de tecnologia StepFun, que controla o calor da bateria durante a recarga. A tecnologia ainda não tem previsão de chegada ao Brasil.
Como funciona a recarga ultrarrápida da Geely?
O sistema combina uma estação de alta potência com uma IA que ajusta a energia entregue conforme as condições da bateria.
O Xingrui PowerMind coordena, em tempo real, carro, bateria, carregador, nuvem, rede elétrica e o sistema de armazenamento de energia da estação.
O maior obstáculo da recarga em altíssima potência é o calor. De acordo com a Geely, a IA consegue prever a temperatura da bateria com até 30 segundos de antecedência e reduzir ou aumentar a potência antes que o aquecimento vire problema.
A meta é manter a temperatura média da bateria abaixo de 55 °C, com pico inferior a 65 °C. Para isso, a estação também usa um circuito de refrigeração líquida em cinco pontos, que atua em toda a cadeia: armazenamento de energia, carregador, cabo, conector e bateria do veículo.
O carro recebe mesmo os 2.250 kW?
Não. Os 2.250 kW são a potência máxima da estação, e não a energia que um carro recebe durante toda a sessão. O próprio sistema regula a entrega conforme a temperatura e o estado da bateria.
Nos testes validados pelo Catarc, centro chinês de pesquisa e tecnologia automotiva, o Lynk & Co 10 atingiu pico de 1.093 kW de recepção. A temperatura da bateria ficou abaixo de 55 °C em 57% do ciclo e chegou ao máximo de 64 °C, segundo a Geely.
Esse detalhe importa na comparação com a BYD. A vantagem da Geely está na potência máxima declarada da estação e em tempos de recarga ligeiramente menores, sempre com base nos números divulgados por cada fabricante, em testes próprios e com carros diferentes.
Quais baterias suportam o novo sistema?
A Geely apresentou duas baterias junto com a nova tecnologia. A mais potente é a Shendun Golden Battery, com taxa máxima de recarga de 12C (em teoria, uma taxa que encheria a bateria inteira em cerca de 5 minutos).
É ela que equipa os carros usados nos testes, o Lynk & Co 10 e o Zeekr 001.
A segunda é a nova geração da Ultra Short Blade Battery, de lâmina curta, com taxa máxima de 6C e voltada a modelos mais acessíveis. Segundo a fabricante, a soldagem a laser nas abas e tampas das células reduz em 10% o calor gerado na recarga.
Essa bateria estreia no SUV Galaxy E5, que precisa de 8 minutos e 25 segundos para ir de 10% a 70%. O modelo é vendido no Brasil com o nome Geely EX5.
A recarga rápida não estraga a bateria?
A Geely afirma que o sistema foi desenhado justamente para evitar a degradação acelerada, o principal receio de quem recarrega com frequência em alta potência.
O PowerMind adapta em tempo real a corrente máxima, a intensidade do resfriamento e a duração da sessão para cada veículo.
A marca também desenvolveu uma tecnologia de restauração de íons de lítio por micropulsos de corrente. A ideia é reativar íons que se acumulam no eletrodo negativo após ciclos repetidos de recarga rápida.
De acordo com a empresa, a combinação da IA com essa tecnologia pode aumentar em até 20% a vida útil da bateria em número de ciclos. Para quem recarrega em casa, a Geely diz ter criado uma estratégia de baixa potência que ajuda a compensar parte do desgaste causado pelas recargas rápidas.
Quantas estações a Geely vai instalar?
A Geely projeta mais de 100 mil pontos de recarga na China até o fim de 2027, sendo mais de 50 mil com a tecnologia Smart Charging. A meta é cobrir todos os condados do país.
A BYD, por sua vez, tem como meta chegar a 20 mil estações Flash Charging na China até o fim de 2026.
Para atrair compradores, a Geely vai oferecer na China um crédito de recarga de 1.000 yuan por ano (cerca de R$ 770) durante dois anos para quem comprar um modelo elegível até 1º de janeiro de 2028.
A garantia da bateria sobe para 8 anos ou 200 mil km, ante os 150 mil km anteriores.
A tecnologia vai chegar ao Brasil?
Por enquanto, não há anúncio. A Geely vende no Brasil o EX2, o EX5 e o híbrido plug-in EX5 EM-i, e o site brasileiro da marca já destaca o Geely Smart Charging como novidade, mas sem prazo, preço ou plano de instalação de estações no país.
O ponto de atenção é que a recarga em 4min30 depende de dois fatores ao mesmo tempo: a estação de 2.250 kW e a bateria de 12C, hoje restrita a modelos premium do grupo vendidos na China.
A versão do Galaxy E5 com bateria 6C também foi lançada no mercado chinês, e a Geely não confirmou se o EX5 brasileiro vai receber o novo conjunto.
Na prática, para quem pensa em comprar um elétrico zero km no Brasil hoje, o anúncio não muda nada no curto prazo.
Mas sinaliza que a disputa entre as montadoras chinesas deve reduzir, nos próximos anos, a principal barreira de quem ainda desconfia do carro elétrico: o tempo parado para recarregar.
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