Quem pesquisa um elétrico zero km costuma encontrar dois números de autonomia para o mesmo modelo: um no material internacional da marca e outro na etiqueta do Inmetro.
O BYD Yuan Plus, por exemplo, era anunciado com 458 km no ciclo chinês e passou a 294 km na homologação brasileira, sem nenhuma mudança na bateria.
A autonomia declarada é um resultado de laboratório obtido sob regras padronizadas, enquanto a autonomia real é o que o carro entrega no seu trajeto, conforme o jeito de dirigir, o trânsito e a velocidade.
Entender como cada uma é calculada evita frustração depois da compra.
O que é autonomia declarada?
Autonomia declarada é a distância que a montadora informa com base em um ciclo de testes oficial, feito em laboratório com condições controladas. No Brasil, vale o número do Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV), do Inmetro.
Desde 30 de setembro de 2023, o Inmetro exige que as fabricantes de elétricos divulguem em propagandas e sites a autonomia medida pelo PBEV, e não a de ciclos estrangeiros.
Quando a regra entrou em vigor, a Renault revisou a autonomia do Kwid E-Tech de 298 km para 185 km por carga.
Por que a autonomia muda entre CLTC, WLTP, EPA e Inmetro?
A autonomia muda porque cada ciclo de testes usa velocidades, trajetos e correções diferentes.
Segundo Clemente Gauer, do Conselho Diretor da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o CLTC chinês testa o carro em velocidades baixas e constantes e gera os números mais altos, o WLTP europeu é menos otimista e o EPA, dos Estados Unidos, é o que mais se aproxima do dia a dia.
O Inmetro segue a metodologia norte-americana SAE J1634 para elétricos e, sobre o resultado do laboratório, aplica um fator de correção de 30%.
Dessa forma, um carro que roda 500 km no ensaio aparece com 350 km na etiqueta. Segundo o órgão, a correção aproxima o resultado das condições reais de uso.
Por isso, um elétrico chinês chega ao Brasil com autonomia menor no papel sem ser uma versão pior. É o caso do BYD Dolphin, que soma 405 km no ciclo chinês e 291 km pelo Inmetro.
A autonomia real é sempre menor que a do Inmetro?
Não. Como o Inmetro já desconta 30% do resultado de laboratório, muitos elétricos rodam mais do que a etiqueta indica, principalmente na cidade.
Gauer considera o PBEV o mais conservador entre os principais ciclos do mundo e sugere somar de 10% a 20% ao número do Inmetro para estimar o uso cotidiano.
Essa vantagem aparece mais no trânsito urbano, onde o elétrico gasta pouca energia contra a resistência do ar e recupera carga nas frenagens. Na estrada, a resistência aerodinâmica cresce com o quadrado da velocidade e a autonomia cai, o oposto do carro a combustão.
Nos modelos a combustão, o Inmetro aplica fatores de ajuste desde 2011. Segundo o órgão, esses fatores vieram de milhares de dados reais, e 90% dos motoristas conseguem consumo dentro do que a etiqueta declara.
O que faz a autonomia real cair no dia a dia?
Velocidade alta, pneus fora da condição ideal e uso intenso do ar-condicionado são o que mais afasta a autonomia real da declarada.
Peso, relevo e estilo de condução também contam. Os números da ABVE dimensionam o impacto:
- Pneus: rodas com pneus de perfil baixo podem reduzir a autonomia em até 20% na comparação com pneus de perfil mais alto, e a calibragem errada tira cerca de 5%;
- Vento contrário: rodar contra o vento representa outros 5% de impacto;
- Temperatura: no clima brasileiro, a perda causada pelo frio fica em torno de 3 a 4 km, porque a maioria dos modelos atuais usa bomba de calor para aquecer a cabine.
Antes de escolher a versão de um zero km, portanto, olhe também o tamanho da roda, e não só a bateria.
Como descobrir a autonomia real do seu carro?
A forma mais confiável é medir no seu trajeto. Carregue a bateria até 100%, zere o hodômetro parcial e rode normalmente até perto de 20% de carga.
Em seguida, divida os quilômetros rodados pela porcentagem de bateria usada e multiplique por 100: se você rodou 240 km gastando 80% da carga, a sua autonomia real fica em torno de 300 km.
Nos carros a combustão, divida os quilômetros rodados pelos litros do reabastecimento e multiplique o resultado pela capacidade do tanque. Repita a medição em semanas diferentes, com cidade e estrada, porque um único teste distorce o resultado.
A estimativa do painel ajuda, mas na maioria dos carros ela se baseia no consumo dos últimos quilômetros. Depois de um trecho rápido de rodovia, o número tende a cair mesmo com a bateria cheia.
Qual autonomia usar na hora de comprar um carro zero km?
Use a autonomia do Inmetro para comparar modelos, porque ela aplica a mesma metodologia a todos os carros vendidos no país. Se um anúncio trouxer um número sem informar o ciclo, desconfie: ele pode vir do CLTC ou do WLTP.
Segundo Gauer, o brasileiro roda em média 35 km por dia, e praticamente todos os elétricos à venda fazem no mínimo 280 a 300 km por carga, o que permite recarregar uma vez por semana ou menos.
O GWM Ora 5, por exemplo, declara 349 km pelo Inmetro, como mostramos no comparativo entre GWM Ora 5 e MG4. Quem pega estrada com frequência, contudo, deve trabalhar com margem, porque é na rodovia que a autonomia real fica mais perto da etiqueta ou abaixo dela.
A autonomia declarada serve para comparar, e a autonomia real serve para planejar. Com o número do Inmetro como ponto de partida e uma medição no seu trajeto, você descobre se o zero km escolhido atende à sua rotina sem sustos na hora de recarregar.